
Tem gente que faz 40 anos e sente os efeitos do tempo por conta da gravidade, passa a usar óculos ou muda de faixa etária no plano de saúde.
A grande mudança na minha vida depois dos 40, eu só comecei a perceber depois da primeira viagem. Meus pés ficaram inchados e nenhum sapato cabia mais no pé! Olhando pelo lado bom das coisas, de agora em diante, basta um par de Havaianas na minha mala...
Em agosto (2007), fui para NY com o Paulo e resolvi levar a minha sandália de guerra, que me acompanha há mais ou menos 10 anos! Custou uns R$60,00, mas o Paulo diz que já deveria estar valendo uns R$ 1000,00 depois das inúmeras visitas ao sapateiro. Acontece que era a minha sandália oficial de viagem, já encarou vários grupos na Disney, Europa, vários verões, além de aulas intermináveis e feiras. Sabendo da “síndrome dos pés pós-balzaquianos”, foi o único par de sapatos que eu levei na mala (além das Havaianas).
O Paulo já anda rápido por natureza e é ligado no 220V e eu sou a turista profissional que aprecia a paisagem, anda no segundo andar do ônibus aberto com um frio abaixo de zero e quer tirar fotos de tudo.
Logo no primeiro dia, meu pé encheu de bolhas.No dia seguinte, protegi as bolhas com esparadrapo. Precisava mais do que meia dúzia de bolhas para me deter em NY.No final do dia, parecia pé de bêbado: inchado, vermelho e cheio de esparadrapos sujos! Os esparadrapos enrolaram e começaram a grudar na palmilha da sandália, fazendo uma espécie de depilação, descolando a palmilha da plataforma da sandália.
Todos os dias, eu dava uma paradinha no sapateiro que colava um courinho aqui, uma tirinha lá... Coisa básica de 10 dólares por dia!
No último dia de viagem, deixamos as malas prontas e eu tentei enfiar a sandália na mala. O Paulo achava que era fim de linha, ela morreria ali mesmo, não valia a pena colocar na mala! Eu não contrariei, mas depois que voltássemos do passeio, elas viriam comigo para o Brasil, direto para o sapateiro! Saímos para que eu tirasse fotos na frente do prédio do Bono. Aproveitando que era na frente do Central Park, resolvi que queria ir até o Guggenhein que era “logo ali” atravessando o parque. O Paulo queria ir de táxi, mas eu queria passear mais no Central Park.No meio do caminho, a palmilha soltou até metade e o Paulo feliz da vida:
- Ótimo, jogue fora aqui mesmo e ponha as Havaianas!
- Putz, bem hoje eu não trouxe, está na mala!
- Como não trouxe?!? A sandália já estava morrendo...
- Mas eu achei que mais um dia ela agüentaria! Mas eu tive uma idéia...
Abri a bolsa e comecei a procurar um remendo estilo “Mac Gyver” para a sandália.
- Já sei, vou colocar um elástico de cabelo no meu pé para segurar a sandália. Eu fiz isso quando a sandália arrebentou no Louvre.
- Essa sandália já tinha arrebentado?
- Faz tempo, foi em 2003 no Louvre. Lembra que eu te contei que tirei a sandália e o segurança me fez calçar de novo porque não podia andar descalça no Louvre? Tive que andar arrastando a sandália no Louvre inteiro pedindo para todo mundo um elástico. A moça do caixa da lanchonete me deu um elástico de dinheiro, enrolei por cima da sandália (quase tive uma gangrena...) e ainda tive que ir a pé até a Ópera de Paris para encontrar o meu pai porque não tinha dinheiro para o táxi!
O Paulo, já nervoso...
-Nem me fale uma coisa dessas! E você ainda não jogou fora essa sandália! Que absurdo!
-Mas é tão boa para viajar!
-Estou vendo! A gente aqui sentado no chão do Central Park com a sua sandália estourada! É ótima!
A crise de riso começava e o marido ia ficando mais nervoso... Na bolsa não tinha nenhum elástico, mas tinha um rolo de esparadrapo-foi o rolo inteiro para tentar segurar meu pé na sandália que nessas alturas tinha virado uma botinha branca.
- Dá a máquina para eu tirar foto do meu pé!
- Que máquina o que, não começa! Nem parece que é guia, olha a situação!
A crise de riso ia aumentando na mesma proporção da indignação e do nervosismo do Paulo...
A operação esparadrapo durou uns 5 metros, era hora de pedir reforços aos deuses dos programas de televisão! Santos Pisantes, Batman! O que faria o Mac Gyver no meu lugar? A minha outra opção era um saco de supermercado. Ensaquei o meu pé, junto com a sandália e amarrei as tiras no tornozelo. Ficou no maior STYLE, mas não durou nem um metro.
O Paulo ficava ainda mais irritado e eu chorava de rir...
-Senta aí no chão que eu resolvo isso!
Ele arrancou a plataforma da sandália, que implodiu nas mãos dele formando uma nuvem de partículas de borracha ao nosso redor. Eu nem conseguia me levantar do chão de tanto rir. Todo mundo que passava também morria de rir da cena, menos ele que procurava o lixo mais próximo para jogar fora a plataforma da sandália.Eu fiquei andando só de palmilha e estava mais ou menos “aqui está fundo, aqui está raso”... Mas não falei nada, só dava risada mesmo!
O Paulo já estava no limite:
-Senta aí de novo que eu vou dar um jeito nessa palhaçada, me dá o outro pé...
Estiquei o pé e ele arrancou a outra plataforma. Fiquei andando no parque só de palmilha, com o acabamento do couro que ficava colado por trás, todo retalhado se esparramando pelo chão. Parecia uma sandália medieval (talvez pré-histórica), mas eu ainda estava preocupada com as fotos, com o Guggenhein...
O Paulo queria só comprar o relógio dele e me esconder da civilização moderna até a hora de ir para o aeroporto para que ele não pagasse mais nenhum mico comigo!
Do outro lado do parque, pegamos um táxi e fomos até a loja de relógios chiquérrima no Columbus Center. Os vendedores eram franceses e começaram a comentar sobre nós. Meu sapato Mel Gibson, “Coração Valente” style chamou atenção especial de um deles, que achava melhor pedir para o segurança ficar por perto. Eu sou simples, mas sou limpinha e com licença, ainda falo francês! O Paulo pedia para ver os relógios e os caras falavam que era muito caro...
- Ah esse é uns 10 mil dólares! Esse outro uns 5 mil- Não tiravam nenhum relógio para o Paulo ver na mão. Um cara que não dá nem um sapato decente para a esposa, não vão ter dinheiro nempara comprar um relógio de supermercado!
Eu terminei o dia com uma havaiana falsificada e o Paulo, sem o relógio dele (mas a culpa é do francês)!